
Dizia Oscar Wilde que sábias eram as mulheres. Elas queriam ser as últimas amantes dos homens; já os tolos homens querem ser os primeiros amantes delas. Ora, ser a melhor escolha de um experiente seria bem melhor que ser a opção de uma tola…
Pois saiu essa semana nos Estados Unidos o livro de memórias da modelo Norris Church Mailer, a sexta e última esposa do escritor Norman Mailer. Eu fico imaginando quem se interessa por esse tipo de gente ( certamente ninguém sabe e/ou lê Mailer hoje em dia ) , mas no meu tempo de garotão, Mailer era o grande Ãdolo. Briguento, cachaceiro, bocudo, treteiro, Mailer seria o cara que escreveria o grande romance americano, a soma entre Faulkner e Hemingway, o cara que diria para o Gore Vidal ficar na sua. Mas Mailer foi se perdendo e acabou perdido. Tendo que pagar pensões para ex mulheres, foi escrevendo pro gasto . E morreu na eterna promessa.
A senhora Mailer, em definitivo, conta a sua vida e , nela, os trinta e três anos que foi casada com Norman. Seu livro se chama A ticket to the circus e , assim, compara seu casamento com o mundo circense. Caipirinha do Arkansas, escolhida Miss Little Rock infantil, narra as angústias de ver a mãe sendo tratada com eletrochoques, conta que perdeu a virgindade num estupro caseiro ( o amigo do seu irmão mais velho mandou ver, com autorização do brother ) , passou na cama do Bill Clinton e quando tinha 26 anos, conheceu o escritor de cinquenta e dois. Diz ela que algumas mulheres acham um homem com o dobro da idade, barrigudo e de pau pequeno sexy.
Sua vida mudou, pois passou a frequentar festas onde os convidados eram Bob Dylan e Woody Allen. Mas começou a ver o lado sombrio do escritor paparicado. Mailer tinha poucos amigos escritores, ele os odiava praticamente, dizia ser um fã de jazz mas nunca ouvia nenhum disco , tinha enorme prazer em acordar o filho dele John Buffalo com hinos militares , mesmo quando o moleque estava de férias. Norris tinha sido casada antes com um soldado que foi para o Vietnam. Pois Mailer xingava o ex dela o tempo todo. Até que um dia, ela teve que lembrá-lo que também não gostava do ex, pois se gostasse , estaria com ele…
Outra mania de Mailer era pegar garrafas de vinhos franceses carÃssimos e misturá-los com suco de laranja. Dizia que era a american sangria. Quando questionado por amigos enólogos, citava Woody Allen , que bebia vinhos franceses com coca-cola e que essa mistureba era ótima para evitar cancer de próstata . Aliás, Norris conta que o que matou o seu marido, aos oitenta e tantos anos não foi o câncer. Mas foi a melancolia. Ele reclamava que depois de fazer uma cirurgia cardÃaca, foi orientado a tirar seus dentes e colocar uma dentadura. Esses dentes novos nunca ficaram acertados , passou a ter dificuldades em comer , perdeu peso e , diz ela, pode ver seu próprio pênis ao tomar banho. ” Aquilo o deprimia,…”
Mailer é um escritor dos tempos que os Estados Unidos existiam. Hoje existe uma coisa gigantesca que sabe-se lá para que serve. Deve ser para alimentar os chineses e o ódio das mentes subdesenvolvidas.
E se o circo da moda é o do soleil, o ticket da Norris não serve para a entrada.Â
E o que faz o John Buffalo Mailer prá viver ? Isso a mãe não diz.